sobre a princesa imperial isabel
no livro de lídia besouchet
pedro ii e o século xix (nova fronteira, 1975, 1993)
alencar não gosta d'eu
(p188)
"A polêmica em torno da partida do Imperador era um aspecto da controvérsia partidária. O Visconde do Rio Branco fez-se intérprete da corrente reformista e José de Alencar fez-se líder da corrente conservadora, vendo com maus olhos que a Regência fosse entregue às mãos da Princesa Isabel, casada com o Conde d'Eu, homem que se colocara abertamente ao lado dos abolicionistas e fora o autor do projeto de emancipação da escravidão no Paraguai."
palácio
(p435)
"[...] o palácio da Princesa Isabel (hoje palácio Guanabara)"
redimir-se do pecado
(p493)
O que se manifestou no Brasil foi o desejo de cada um se redimir do pecado inicial, e não de redimir os escravos. De outra maneira não se explica que a Princesa Isabel, em 4 de maio de 1888, tivesse recebido, no Palácio Imperial de Petrópolis, catorze escravos foragidos de fazendas próximas, numa demonstração de humildade que muito se assemelhava ao lava-pés da Semana Santa...
patrocínio: negro vendido
(p497)
Naquele momento, [Patrocínio] estava ligado à Regente, que ele designou graciosamente de 'Redentora'. Os republicanos não lhe pouparam ataques, chamando-o 'de último negro vendido', em alusão ao que consideravam uma bajulação à Princesa Isabel.
dois reinos
(p506)
Enquanto a Princesa continuava a reinar sobre os ex-escravos, os republicanos reinavam sobre os ex-proprietários de escravos.
rui vê a guarda negra
p524
Em 15 de outubro, dia das bodas de prata da Princesa Isabel, a 'guarda negra' se manifestou nas ruas do Rio de Janeiro em forma escandalosa. Rui Barbosa, ao comentar os acontecimentos, afirmou que havia na cidade pelo menos 1.500 homens recrutados entre "réus da polícia, capoeiras, navalhistas, desordeiros, malfeitores da pior casta", armados com navalhas e "havendo jurado morrer pela Princesa Redentora".
[...]
A "Legião de sangue", no dizer de Rui, multiplicava os incidentes no interior do Brasil, onde "o liberto depõe a enxada, volta as costas à terra, põe no ombro a garrucha homicida", a fim de "acudir em auxílio da rainha que os remira, contra os republicanos que os pretendem escravizar..."
patrocínio e a guarda negra
(p535)
A carreira política de Patrocínio fora feita de altos e baixos, de impulsos irreprimidos e de gestos teatrais. Republicano dos tempos em que, com Lopes Trovão, estivera ao lado do povo lutado contra o imposto do vintém, sele se aproximara do Trono durante as lutas abolicionistas, tornando-se um defensor fanático da Princesa. Com Rebouças, fora um dos organizadores da "guarda negra", redigindo para seus componentes o romântico juramento que dizia: "Juro defender o trono de Isabel, a Redentora, pelo sangue de minhas veias, pela felicidade de meus filhos, pela honra de minha mãe e a pureza de minhas irmãs e, sobretudo, por esse Cristo que tem séculos..." Ao abandonar o Trono, Patrocínio simplesmente retornava a seus primeiros amores, às suas convicções mais profundas. A transição, porém, era demasiadamente brusca para poder ser justificada.
13 de maio em versalhes
(p595)
[O Imperador] desejou passar o 13 de maio com a filha em Versalhes [...] Em carta que escreveu a Nabuco, assim [o Barão do Rio Branco] descreveu a entrevista: "A sala estava vazia. Apenas o pai e a filha e eu. Depois o Grand Old Man levantou-se, tomou de um bouquet que estava sobre a mesa e entregou-o à filha. 'Isto é para você, minha filha, porque este dia é seu', disse-lhe, abraçando-a e beijando-a. Esta cena e aquela solidão impressionaram-me muito."
rei morto...
(p601-2)
Às 0:30h do dia 5 de dezembro de 1891, o mundo deixou de existir para o Imperador do Brasil. Os médicos se aproximaram da cama e declararam que Dom Pedro de Alcântara estava morto. A Princesa Isabel avançou alguns passos e, dando à cena uma solenidade extrema, beijou-lhe as mãos. Em seguida, todos os presentes beijaram a mão da Princesa, que naquele momento se tornou a sucessora legal do Trono do Império do Brasil...
santa isabel
(p626)
[nas cerimônias fúnebres do pai, em Portugal] A Princesa Isabel, sobre o vestido negro, trazia a tiracolo a banda das ordens de Santa Isabel e de Maria Luísa.
outras notas
demografia quando da abolição
(p492)
A composição da população brasileira no último quarte do século XIX era de cinco milhões de negros e mestiços (libertos ou nascidos livres), em um total de quinze milhões de pessoas e apenas setecentos mil negros escravos.
abolição atrasada
(p493)
A elite brasileira parecia sedenta de justiça, querendo se absolver aos olhos do mundo civilizado. Sucessivamente, a Dinamarca, a Suécia, a Holanda, Portugal e Espanha haviam, durante o correr do século XIX, abolido a escravidão. Na América espanhola, o contraste parecia mais chocante ainda, pois a Independência coincidira com a Abolição.
rui: contra a monarquia
(p516)
[Rui Barbosa] clamou contra o anacronismo da Monarquia em terras americanas e a vergonha da escravidão, que era a vergonha do regime. ("Deixem-se pois os nossos amigos do rei – gênero avariado, bolorento e de mau cheiro na América [...] Não se há de reinar sobre uma nação americana com os preconceitos das famílias destronadas na Europa.")
euclides perde a espada
(p523-4)
Em 3 e setembro, cadetes da Escola Militar decidiram fazer uma demonstração de republicanismo. Em vez de apresentarem silenciosamente armas ao ministro da Guerra, gritaram 'viva a República' e quebraram a espada. No nervosismo da manifestação, um cadete – Euclides da Cunha – deixou cair sua espada no chão. O ministro mandou prendê-lo. O Imperador, ao saber do incidente, ordenou sua libertação, desligamento da Escola Militar e matrícula na Escola de Engenharia.
passeio em botafogo
(p539)
Na manhã de 15 de novembro, conforme estava habituado, o Conde d'Eu saiu [do palácio em Laranjeiras] com seus dois filhos, os Príncipes Dom Pedro e Dom Antônio, para dar um passeio a cavalo pela praia de Botafogo, não notando nada de extraordinário nas ruas.
eça gobinando
(p572)
[Na casa de Nioac, enquanto a Princesa Isabel morava em Versalhes, o Imperador] recebeu a visita de Eça de Queirós, no momento cônsul de Portugal na França.[...] defendia teorias que se aproximavam enormemente das de Gobineau, afirmando: "É o caráter das raças e não a forma dos governos que faz ou impede as civilizações. Uma república na Turquia, mesmo com todos os Direitos do Homem traduzidos do francês, será sempre turcamente abjeta."
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